quinta-feira, 18 de junho de 2009

Falcão e Sofia

A matéria abaixo, escrita por esta que vos escreve, foi publicada no jornal Diário Gaúcho em janeiro de 2007. É o perfil de um andarilho de Porto Alegre. Estávamos passando por ele e achamos incríveis as mensagens que o cara carregava no carrinho inseparável. As fotos são da grande colega e baita profissional Andréa Graiz.

Falcão e Sofia
ALINE CUSTÓDIO
Enquanto Sofia ganha bolacha de uma pedestre, Falcão apenas recebe um olhar desconfiado. Sofia ganha afagos de quem passa por ela. Falcão é, simplesmente, ignorado. Sofia e Falcão formam uma dupla há um ano e quatro meses, em Porto Alegre.

Todas as manhãs, ficam sentados numa sombra na esquina da Rua Sebastião Leão com a Avenida João Pessoa, no Bairro Azenha. À tarde, passeiam pela Redenção. No cair da noite, dirigem-se para a marquise de um prédio no Bairro Praia de Belas.

Falcão protege Sofia. E Sofia, defende Falcão. São amigos inseparáveis. A maior curiosidade nessa história é que Falcão fala e Sofia, apenas obedece. Falcão é o apelido de um andarilho de 42 anos que se nega a dizer o verdadeiro nome. Sofia é uma vira-lata preta e branca, adotada por ele logo ao nascer.

Os dois perambulam pelas ruas da Capital e recebem todo tipo de ajuda. Sofia é a que mais tem madrinhas e padrinhos. Alimenta-se apenas com ração de primeira linha e tem até cobertor próprio. Em dias de chuva, é protegida por um guarda-chuva dado especialmente para ela. Falcão vive há 27 anos nas ruas e depende da sorte. Ganha roupas, calçados e alimentos e dorme aninhado à Sofia. Carrega um carrinho de supermercado, no qual coloca os poucos pertences e a comida da cadela.

Algumas vezes por ano, costuma caminhar até Bagé para rever a irmã adotiva. Segundo ele, são 16 dias para ir e 20 dias para voltar.
– Conheci boa parte do Brasil caminhando. Sou andarilho por opção. Quando o asfalto está quente, coloco a Sofia no carrinho para ela não queimar as patinhas – conta.

Na frente do velho carrinho, Falcão costuma escrever mensagens positivas para quem passa. A cartolina, amarrada com cordão, e as canetas também são doadas.
– É tanta violência neste mundo que sinto necessidade de fazer algo para as pessoas sorrirem, principalmente, crianças e idosos. O mundo precisa melhorar – justifica Falcão, sem dar muita importância para a própria situação.


3 comentários:

Contracena disse...

Gostei da "dupla" e dos seus nomes.
Falcão e Sofia - Sofia e Falcão

Beijo.

Aline C. disse...

Eu tbm gostei tanto dos nomes, que acabei fazendo a matéria :)

Angelica Silveira disse...

Cara Aline,

Moro em Bagé, e vi teu blog porque o Sr. Falcão está em Bagé e tenho procurado dentro das minhas possibilidades ajudá-lo com alimento e ração. Como eu sabia da reportagem resolvi procurar mais algum dado.
Infelizmente, ele continua morando na rua, mais precisamente, na frente da fármacia que fica ao lado do prédio onde moro.
Não fica na casa da irmã, imagino que deva ser por problemas originados pelo alcolismo.
Bagé é uma cidade onde as pessoas não são muito solidárias, pouquíssimas pessoas se preocupam com ele e ajudam. Tem feito noites muito frias e já sugeri a ele que fosse para o albergue mas não quer ir. Imagino que seja porque lá a Sofia não possa ficar junto a ele.
Tenho notado a indiferença das pessoas e mais, até uma certa hostilidade. Minha última idéia é procurar algum político, pois quando falo com as pessoas que conheço para arrumar um local para ele passar a noite, ninguém pode ajudar.
Ele aqui fica embaixo da marquise, que é pequena, exposto ao frio intenso e tem chovido nos últimos dias, veja que em Bagé, 0°C é normal.
Entrei em contato contigo porque não tenho conseguido pessoas que se solidarizem. Sou de Pelotas e morei em POA por cinco anos e estou há dois anos aqui.
Vou te ser sincera, aqui o preconceito com pessoas de rua é muito pior. Por isso, se tiveres alguma sugestão para ajudá-lo ou puderes me ajudar a fazer algo por eles (Falcão e Sofia) agradeço muito. Ele é uma pessoa de bom coração e ela é uma fofa. Não imaginas como fico aflita em pensar que ambos estão em situação de risco.
Peço que divulgues ao máximo a história deles que é o que tenho feito.
Abraços, Angelica